quinta-feira, 5 de agosto de 2010

pro meu minino

Minino que sobe n'árvore
tem quatro luas para usar de chapéu
tem no sapatinho
sementes que querem dar pé
assim,
pr'ele dar no pé

ficando descalço
facilita o agarrar no tronco
e quando o galho é muito torto
basta gritar lá de cima

-to aqui, agora sou o macaco amarelo-

pronto,
é natural daquele lugar

para bicho

gente

escuridão

vento

torna-se apto

torna-se tudo quanto é coisa de árvore

Minino que sobe n'árvore
não se afigura só de chão

viu minino?

agora faz no corpo d'árvore um coração
pra quando anoitecer mais duas mil vezes

(mesmo eu não estando aqui)

a gente ri junto
e brincar
de macaco e leão
com mais minino e mais escuridão.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Era assim, uma vez.

Enquanto eu menina,
embaixo da mesa,
me alimentava de gatos,
meus pais e os outros dois de mim
levavam à boca a seriedade das folhas,
das águas,
saborosas pequenices e muitas, muitas falas.

Eram comigo, ensaio de gente entendida.
No entanto não sabiam,
até onde estender com os pássaros.


-meu gatinho miava a mirar só grama
e esperava.

O tempo despertava sono e me esqueciam no vermelho daquele chão.

nessa hora, meu gato já estava mais para peixe
(só havia se esquecido de avisar às quatro patas, o momento de recolher)

pedia água assim:
cágua! qué qué qué. cágua! qué qué qué

era música igual cantava aquele,
sobre o fogo que apagou, sabe?
Leva sempre no bico essa notícia.
Esse mesmo.
O menestrel dos ares.


Para quem sabe voar.



-Eu sabia.

-Ainda sei saber.



Quando deserta,
voltava a ser gente.

Era preciso muita concentração
e um bocadinho de indisciplina com tudo.

Não durava muito.

Passado que passou.
Esse,
que anda de trás para frente.
Sempre ao avesso.


Acertei a mosca e a qualidade do piso da garagem.
Lá tinha:
aranha caranguegeira, homem barbudo,
rodo, sabão.

Estava pronto o nosso mar vermelho.

Podia chegar quem chegasse,
quem soubesse mergulhar.
Era o bastante para o time ficar completo de coisas novas.


-Tudo era absoluta e mente, verdade nossa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Meu caminho da felicidade

Caminhávamos cantando, ele e eu. Ao lado da nossa casa, o mato. Entrávamos para explorá-lo, pulando de pedra em pedra. Esse era o caminho da felicidade. Talvez eu a tenha perdido em uma daquelas árvores, em algum galho torto que enfeitava as minhas vistas enquanto eu seguia os calcanhares dele na volta. A voz ia sumindo e eu ia, de pedra em pedra, fazendo o meu caminho. O trajeto da volta era mais demorado. Me sentia presa ao verde todo daquele nosso deserto e ele ia se esvairindo, evaporando, virando grama, virando casa, virando mãe, irmã, irmão, cachorro. Cachorro chorando, a banda tocando, as pessoas atrás e o corpo dele lá, dentro do caixão.
Bem, eu não precisava de mais ninguém além de nós dois e todas aquelas árvores.
Hoje, me restam apenas a imagem, as pedras e a notícia do meu consciente dizendo todo santo dia quando meus olhos teimam em abrir, que agora sou eu e a certeza de que o caminho, aquele caminho, foi um equívoco.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

“Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para
a insanidade.

(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo
do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com
estrondo

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)
SYlvia Plath

terça-feira, 6 de abril de 2010

.1

um vão no cú
dois céus
feitos de cuspe
em dia - Vive la merde
pés de vidro
mancos e cotocos
suaves espermas em formas de osso
óssos do ofício o se fazer de grosso