segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Tratado absorto de um ser inadvertido
Por historiaspossiveis
Isabel Roriz



Sento-me agora para começar a fazer algo. Preciso entender o que em mim há de mais sagrado e insuportável. Talvez, entre tais adjetivos, sem querer blasfemar (blasfemando: verbalmente, um não-adjetivo), devesse colocar uma vírgula, já que o insuportável existe dentro de tudo que é sagrado. Neste tratado, neste corpo, neste enfado, certo que sim, mora o cansaço, a angústia, o desprezo, o estado de inércia, o sagrado estado de inércia, princípio para obter, talvez, uma vida de verdade.

O som. Escuto sons o tempo todo, eu os escuto, a maioria do resto, não. Não sabem a diferença entre música e som. Eu, em plena consciência de suas diferenças, cheguei ao estado decidido por mim, como um estado superior, de igualá-los. Há tempos, desde que me percebo, sinto receio em poluir minha inquietude com a dos outros. Não gosto dos outros, seria entregar-me demais, expor-me completamente e inocentemente à absurda inadmissão de um qualquer, capaz de fazer toda a diferença em minha morte. Preciso morrer completamente nua.

O homem colhedor de uvas, que senta para ouvir música em seu novo aparelho de som, o homem incapaz de sonhar. Esses tipos, sempre muito ocupados com o óbvio. O homem que obedece sempre a sua vontade, sem ao menos pensar em contrariar o seu mecanismo, é um homem insignificante e desprezível.

Preciso mesmo martirizar, a tudo e a todos, preciso falar sobre pedras, sobre sons que não são músicas, sobre música. Música, sempre um som. Preciso martirizar o som, destruí-lo, chegar ao ápice de minha loucura particular, e ter a certeza absoluta que encontrei o silêncio. Veja bem, eu já encontrei, encontrei de uma forma tão estranha, sei de sua existência, mas a conclusão que cheguei é a de que eu nunca vou conseguir obtê-lo. Acho louvável essa minha façanha.

Posso falar de pedras, acho que já posso falar de pedras, estou mais morta do que elas. A pedra sendo pedra para o catador de uvas? Dentro daquela paisagem, ele catando uvas perfeitas, o sol e seu sorriso amarelo, as pedras paradas, como se fossem intocáveis. Prefiro o catador de pedras, o escolhedor de pedras, não todas, todas não servem. A coletividade não leva ninguém a lugar nenhum.

Silêncio. Eu e o silêncio, incompatíveis. Eu sei dele, ele sabe de mim, não nos misturamos, somos repulsivos um ao outro. Dentro da minha sagrada inércia, silêncio não me faz casa. Talvez casca. Casa, nunca.

É bem isso, a casca. O silêncio é a casca. Claro, a maioria não passam de casca. Se pegasse um martelo e fosse por aí, distribuindo amor gratuito, teria uma coleção de cactos e o mundo talvez ficasse menos desprovido de beleza. O amor estraga tudo.



No lugar da fala havia um chapéu parado
Havia também uma bengala e um homem
Um homem que andava cabisbaixo
mas não pelo tormento de uma vida amarga
e sim por um mundo de ventania
Um homem mundo de ventania, chapéu e bengala


A fala do homem ventania não se desarrumava
não se calava com estrondos e chão vomitado
não doía como um soco na boca do estômago
a dor do homem mundo ventania, chapéu e bengala
era outra

A dor de quem morre estando cabisbaixo é a da pedra
a da pedra nos rins que articulavam falas descomunais

Um homem pedra nos rins, bengala e chapéu
um homem ventania e de mundo fantástico
que calça as dores nos olhos de uma garotinha
plena e de sóis nos ombros em dias de balanço
bengala, chapéu e ventania

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

vem dizer para mim que não estávamos tolos
me camufla no medo que sente das amantes
sou teu lugar vazio e teu calmante
me erra
passei por trás

sexta-feira, 6 de abril de 2012

.4

me vejo
(sem querer ver)
sem os membros

um toco
um troço
um destroço

escoltada
pelos objetos
em meu quarto.

.3

destroçar

com as fitas
que prendiam os cabelos


nos dentes
a vinheta
as pernas vazias

o buraco

o traço

o lençol

sexta-feira, 9 de março de 2012

.2

do peito até a virília
um corte,
expondo as vísceras

(as inúteis visceras depois de aberto o peito).

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Nome existe para dar vez à matemática.